Uma cachaça politicamente correta (Estado de S.Paulo)

Texto de Ângela Lacerda do Jornal O Estado de S. Paulo

Sítio em Chã Grande produz a Sanhaçu, única cachaça orgânica de Pernambuco

A 85 quilômetros do Recife, num sítio de 2,5 hectares no município de Chã Grande, a família Barreto Silva cuida com orgulho da sua cria: a fábrica de cachaça Sanhaçu, única com certificado de “orgânica” em Pernambuco.

Lançada em 2008, produz 10 mil litros por ano, está presente em delicatessens e restaurantes do Grande Recife e quer ser sinônimo de cachaça orgânica de qualidade no País. Para isso, a família está atenta a cada detalhe, em cada etapa da produção, tendo sempre, por princípio, o equilíbrio ambiental, social e econômico. Ali, tudo é reaproveitado, praticamente sem desperdício.

“É de pequeno cuidado em pequeno cuidado que conseguimos um produto final diferenciado e de qualidade”, afirma a gerente comercial Elk Barreto, ao citar como exemplos a cana cortada sem queima, o solo tratado sem agrotóxicos, a água nascente usada para diluir o caldo da cana, a caldeira a vapor, a fermentação realizada com produto natural e ao som de música clássica.

O cuidado se estende à apresentação final, com a opção de embalagens para presente – caixas de madeira com xilogravuras assinadas por Silvio Borges, filho do famoso artista e artesão pernambucano J. Borges.

O patriarca, Moacir, e a mulher, Glória, estão ligados à agricultura orgânica há cerca de 18 anos, quando ele se aposentou da Marinha e quis fugir da cidade. Comprou o sítio em Chã Grande, começou a estudar agroflorestamento e se uniu a outros pequenos produtores orgânicos.

Iniciou o reflorestamento da terra com mata nativa e árvores frutíferas, o que propiciou o ressurgimento, no sítio, de uma nascente de rio que estava praticamente extinto.

Há cerca de seis anos, o casal e os filhos Max, Oto e Elk começaram a pensar na possibilidade de investir em um produto orgânico não perecível, como um empreendimento familiar. Assim, chegaram à cachaça. Fizeram pesquisa de mercado, avaliaram a possibilidade de crescimento e foram à fonte para aprender a fazer o produto: Minas Gerais. “Minas é a excelência em cachaça de alambique no Brasil, o maior produtor e tem as mais famosas cachaças em sabor”, resume Elk.

Ela, Oto e uma funcionária fizeram cursos com mestre alambiqueiro e no Centro de Tecnologia da Cachaça. Em Minas, também compraram todos os equipamentos para a fábrica – caldeira, dornas de aço inox (para fermentação), moenda, alambique, dois tonéis de carvalho. Só não vieram de Minas os toneis de freijó, madeira da Amazônia que não transfere cor ou sabor ao produto, adotado pela empresa.

Hoje, a Sanhaçu tem 20 mil litros de cachaça armazenados, descansando em toneis de freijó e outros 500 litros em barris de carvalho. “Sempre temos a opção em carvalho para quem prefere.”

A família não fala quanto investiu até o momento. “Todos nós quebramos nossos cofrinhos”, brinca Elk ao assegurar que atualmente a fábrica está no “zero a zero” – com retorno do que gasta. “Não temos dívidas, mas ainda não temos lucro.”

Expansão. O otimismo domina a família que prevê a expansão da produção para 40 mil litros por ano em um período de cinco anos. Hoje, a Sanhaçu trabalha com a cana plantada em uma área de dois hectares – parte arrendada a agricultores familiares da região, que seguem à risca a orientação dos Barreto Silva.

Distante 15 quilômetros de Gravatá, cidade serrana com apelo turístico – pólo moveleiro, artesanato, gastronomia – o sítio dos Barreto Silva está aberto à visitação pública diariamente e começa a se consolidar também como atração.

Ali, pode-se degustar a cachaça e acompanhar o passo a passo da sua produção, além de se entrar em contato com uma propriedade que também usa, em pequena escala, energia eólica e solar e prima pela reciclagem – o bagaço da cana abastece a caldeira ou vira adubo, a “cabeça” e a “cauda” da cachaça são reutilizadas como combustível para consumo interno.

A Sanhaçu, nome de pássaro, também tem como missão o resgate da tradição da cultura canavieira – que foi base da economia pernambucana – sem o seu lado nocivo – a exploração da mão de obra, o desrespeito ao meio ambiente e à natureza.

Fonte: Caderno Economia /O Estado de S.Paulo


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